quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

reflexão crítica sobre 7 conferências #01


Sul concetto di arbitrarietá in architettura.1” 
Texto crítico as partir da conferência de Eduardo Souto Moura, arquitecto,  na abertura do curso de Doutoramento da Universidade de Évora., 6 de Fevereiro de 2012



Cosa sia l'Architettura, e come debbono essere istruiti gli Architetti.”2

O “de architettura” do Vitrúvio foi Doutrina por séculos, enquadrando de forma rigorosa e quanto mais científica possível a Disciplina, até a subversão de todos os sistemas político-económico-pedagógico-social, começada no final do século XIX com a Revolução Industrial e que lançou, em todas as áreas disciplinares, novos desafios que na arquitectura traduziram-se, também, numa necessidade de re-equacionar e enquadrar o habitat humano nos novos valores.
Esta mudança de paradigma obrigou a re-pensar na forma de construir e de fazer projecto em arquitectura. Ao longo do século XX, a constante procura de um modo de “fazer” ofereceu-nos (e ainda nos oferece) visões sublimes, “Espaço que é para nós a expressão das nossas possibilidades colectivas: a simbolizar o poder do homem, sendo ao mesmo tempo o sinal e o instrumento de uma capacidade infinita”3, obras singulares que ainda hoje propõem leituras sobre possibilidades e trilhos para a nossa cultura, reflexo da construção e interpretação dos seus lugares.
Na prossecução destes objectivos, destas visões, a arquitectura desenvolveu-se em paralelo com a evolução da cultura e da sociedade, num processo de influências recíprocas, desejavelmente numa procura de equilíbrios entre algumas contradições da “Democracia” que presenciamos hoje. Contudo, ao querer encontrar validação do real alcance destes preceitos através, por exemplo, de uma leitura sobre a construção do Território Humano, percebemos que são raros os casos exemplares a citar e que a arquitectura, hoje objectualizada e auto-referenciada, é genericamente autista face a uma leitura holística das necessidades, tal como é isenta de “visões” da Sociedade e do seu Espaço, salvo poucas excepções.
È neste pressuposto, aqui muito resumido e que mereceria maior desenvolvimento, que assentam as reflexões, outrora doutrina, hoje ainda actuais sobre: O que é a arquitectura e como devem ser instruídos os arquitectos?

A conferência proferida por Eduardo Souto Moura, Prémio Pritzker 2011, é um pretexto e uma oportunidade para uma reflexão.
“Queria não projectar nada, não construir nada que não trouxesse consigo a mensagem forte e clara de uma responsabilidade que não é unicamente estética, mas que também é de tipo ético e moral”4 responde Renzo Piano ao jornalista Renzo Cassigoli, externando uma leitura pessoal sobre a responsabilidade do arquitecto.
Talvez fosse uma única frase desta intensidade e deste comprometimento que gostaria(mos) e precisaria(mos) de ter ouvido também. Algum apelo que conseguisse despertar a consciência sobre o tempo que vivemos, lançando ao mesmo tempo um alerta, partilhando algum peso da responsabilidade que deveríamos sentir na nossa profissão, como arquitectos e cidadãos.
Mas na euforia e descontracção de um momento, que pode ser encarado de auto-celebração, o teor dos conteúdos transmitidos foi outro. Foi celebrado o projecto de interesse político e a capacidade de vendê-lo aproveitando a oportunidade. Foi celebrada a casa e o sentimento de “inveja” sobre o qual se gerou outro contrato. Foi celebrado o objecto arquitectónico num “não lugar”, construindo um espaço para um estilo de vida em vez que para o Homem. Ainda, com a leveza de quem parece não ter responsabilidade alguma com a construção de uma ética arquitectónica, foi afirmada a possibilidade de “o belo não ter que ser verdadeiro” mas poder ser atingido através de “maquilhagem”. Dulcis in fundo, foi comunicado o desencanto sobre o tema do habitar, objecto ancestral da construção do espaço humano, com a afirmação de que a “re-invenção da tipologia de uma casa não é fácil, quanto mais possível”. As palavras foram acompanhadas por imagens e desenhos que complementaram o conteúdo da comunicação mostrando entre outras: casas cuja orientação escolhida não respondem as exigências e preocupações actuais; muros cujos esforços para atingir a estética não justificam alguma pobreza de conteúdos; chaminés que servem só para o imaginário colectivos; edifícios de habitação colectiva que dissociando-se do espaço público proclamam a superioridade dos seus proprietários e a supremacia da tecnologia.



Talvez a conferência quisesse exactamente centrar o seu conteúdo neste declínio de valores humanos, a que também assistimos diariamente e ao qual parecemos imunes ou resistentes. Talvez quisesse alertar para o seu reflexo na arquitectura actual, criando assim uma oportunidade de debate a partir deste grande número de provocações.
O debate que se seguiu, entre outras, lançou uma questão sobre o papel interventivo do arquitecto com o objectivo de enquadrar, a partir da conferência proferida, quais as nossas responsabilidades hoje e se o nosso papel não deveria explorar, na descodificação de um lugar (de uma sociedade), todas as áreas de nossa competência e responsabilidade. A resposta dada, remeteu a um artigo do arquitecto Rafael Moneo, “sobre o conceito de arbitrariedade na arquitectura”, na revista Casabella, escrito há mais de 20 anos e que o grande público, eu incluído, desconhecia.
“Edificar significa hoje intervir no ambiente, na paisagem em que vivemos muito mais que construir um palácio.... A arquitectura dilui-se no ambiente: o arquitecto é incapaz de isolar um edifício. E se tal acontecer, já não faz sentido discutir sobre a arbitrariedade formal como origem da arquitectura.”, conclui Rafael Moneo no seu texto que explora a questão da arbitrariedade na construção da forma perante a função, respondendo à pergunta, mas deixando ainda mais em aberto a inquietude que a apresentação me proporcionou.



1 MONEO, Rafael, Casabella nº 189
2 POLLIONE, Marco VITRUVIO,Dell'Architettura, Libro Primo, trad. Carlo Amati, ed. Milano,1829
3 LEDRUT, Raymond , L'Homme et l'Espace em Encyclopédie de la Pléiade – Histoire des Moeurs, Paris, Gallimard1990
4 PIANO, Renzo, La responsabilitá dell'architetto, 2004, Passigli Editori, trad. Livre de “Vorrei non progettare nulla, non costruire nullache non porti com sé il messaggio forte e chiaro di una responsabilitá che non è solo estetica ma che è anche di tipo etico e morale.”