“Sul
concetto di arbitrarietá in architettura.1”
Texto
crítico as partir da conferência de Eduardo Souto Moura,
arquitecto, na
abertura do curso de Doutoramento da Universidade de Évora., 6
de Fevereiro de 2012
“Cosa
sia l'Architettura, e come debbono essere istruiti gli Architetti.”2
O
“de architettura” do Vitrúvio foi Doutrina por séculos,
enquadrando de forma rigorosa e quanto mais científica possível a
Disciplina, até a subversão de todos os sistemas
político-económico-pedagógico-social, começada no final do século
XIX com a Revolução Industrial e que lançou, em todas as áreas
disciplinares, novos desafios que na arquitectura traduziram-se,
também, numa necessidade de re-equacionar e enquadrar o habitat
humano nos novos valores.
Esta
mudança de paradigma obrigou a re-pensar na forma de construir e de
fazer projecto em arquitectura. Ao longo do século XX, a constante
procura de um modo de “fazer” ofereceu-nos (e ainda nos oferece)
visões sublimes, “Espaço que é para nós a expressão das
nossas possibilidades colectivas: a simbolizar o poder do homem,
sendo ao mesmo tempo o sinal e o instrumento de uma capacidade
infinita”3,
obras singulares que ainda hoje propõem leituras sobre
possibilidades e trilhos para a nossa cultura, reflexo da construção
e interpretação dos seus lugares.
Na
prossecução destes objectivos, destas visões, a arquitectura
desenvolveu-se em paralelo com a evolução da cultura e da
sociedade, num processo de influências recíprocas, desejavelmente
numa procura de equilíbrios entre algumas contradições da
“Democracia” que presenciamos hoje. Contudo, ao querer encontrar
validação do real alcance destes preceitos através, por exemplo,
de uma leitura sobre a construção do Território Humano, percebemos
que são raros os casos exemplares a citar e que a arquitectura, hoje
objectualizada e auto-referenciada, é genericamente autista face a
uma leitura holística das necessidades, tal como é isenta de
“visões” da Sociedade e do seu Espaço, salvo poucas excepções.
È
neste pressuposto, aqui muito resumido e que mereceria maior
desenvolvimento, que assentam as reflexões, outrora doutrina, hoje
ainda actuais sobre: O que
é a arquitectura e como devem ser instruídos os arquitectos?
A
conferência proferida por Eduardo Souto Moura, Prémio Pritzker
2011, é um pretexto e uma oportunidade para uma reflexão.
“Queria
não projectar nada, não construir nada que não trouxesse consigo a
mensagem forte e clara de uma responsabilidade que não é unicamente
estética, mas que também é de tipo ético e moral”4
responde Renzo Piano ao jornalista Renzo Cassigoli, externando uma
leitura pessoal sobre a responsabilidade do arquitecto.
Talvez
fosse uma única frase desta intensidade e deste comprometimento que
gostaria(mos) e precisaria(mos) de ter ouvido também. Algum apelo
que conseguisse despertar a consciência sobre o tempo que vivemos,
lançando ao mesmo tempo um alerta, partilhando algum peso da
responsabilidade que deveríamos sentir na nossa profissão, como
arquitectos e cidadãos.
Mas
na euforia e descontracção de um momento, que pode ser encarado de
auto-celebração, o teor dos conteúdos transmitidos foi outro. Foi
celebrado o projecto de interesse político e a capacidade de
vendê-lo aproveitando a oportunidade. Foi celebrada a casa e o
sentimento de “inveja” sobre o qual se gerou outro contrato. Foi
celebrado o objecto arquitectónico num “não lugar”, construindo
um espaço para um estilo de vida em vez que para o Homem. Ainda, com
a leveza de quem parece não ter responsabilidade alguma com a
construção de uma ética arquitectónica, foi afirmada a
possibilidade de “o belo não ter que ser verdadeiro” mas poder
ser atingido através de “maquilhagem”. Dulcis in fundo,
foi comunicado o desencanto sobre o tema do habitar, objecto
ancestral da construção do espaço humano, com a afirmação de que
a “re-invenção da tipologia de uma casa não é fácil, quanto
mais possível”. As palavras foram acompanhadas por imagens e
desenhos que complementaram o conteúdo da comunicação mostrando
entre outras: casas cuja orientação escolhida não respondem as
exigências e preocupações actuais; muros cujos esforços para
atingir a estética não justificam alguma pobreza de conteúdos;
chaminés que servem só para o imaginário colectivos; edifícios de
habitação colectiva que dissociando-se do espaço público
proclamam a superioridade dos seus proprietários e a supremacia da
tecnologia.
Talvez
a conferência quisesse exactamente centrar o seu conteúdo neste
declínio de valores humanos, a que também assistimos diariamente e
ao qual parecemos imunes ou resistentes. Talvez quisesse alertar para
o seu reflexo na arquitectura actual, criando assim uma oportunidade
de debate a partir deste grande número de provocações.
O
debate que se seguiu, entre outras, lançou uma questão sobre o
papel interventivo do arquitecto com o objectivo de enquadrar, a
partir da conferência proferida, quais as nossas responsabilidades
hoje e se o nosso papel não deveria explorar, na descodificação de
um lugar (de uma sociedade), todas as áreas de nossa competência e
responsabilidade. A resposta dada, remeteu a um artigo do arquitecto
Rafael Moneo, “sobre o conceito de arbitrariedade na arquitectura”,
na revista Casabella, escrito há mais de 20 anos e que o grande
público, eu incluído, desconhecia.
“Edificar
significa hoje intervir no ambiente, na paisagem em que vivemos muito
mais que construir um palácio.... A arquitectura dilui-se no
ambiente: o arquitecto é incapaz de isolar um edifício. E se tal
acontecer, já não faz sentido discutir sobre a arbitrariedade
formal como origem da arquitectura.”, conclui Rafael Moneo no seu
texto que explora a questão da arbitrariedade na construção da
forma perante a função, respondendo à pergunta, mas deixando ainda
mais em aberto a inquietude que a apresentação me proporcionou.
1 MONEO,
Rafael, Casabella nº 189
2 POLLIONE,
Marco VITRUVIO,Dell'Architettura, Libro Primo, trad. Carlo Amati,
ed. Milano,1829
3 LEDRUT,
Raymond , L'Homme et l'Espace em Encyclopédie
de la Pléiade – Histoire des Moeurs,
Paris, Gallimard1990
4 PIANO,
Renzo, La responsabilitá dell'architetto, 2004, Passigli Editori,
trad. Livre de “Vorrei non progettare nulla, non costruire
nullache non porti com sé il messaggio forte e chiaro di una
responsabilitá che non è solo estetica ma che è anche di tipo
etico e morale.”