Estávamos pacatamente discursando, ao jantar de quinta feira passada, sobre curiosidades. Sebastião, afilhado adquirido através de uma maravilhosa fatalidade, contava das grandes habilidades dos Sherpas Tibetanos, capazes de feitos únicos, naquelas montanhas do Tibete que nos parecem distantes e extremamente insidiosas tal como pouco aptas ao habitat humano. Sherpas capazes de escalar irtas paredes rochosas para colocar as cordas para os aventureiros ocidentais que optaram desafiar a natureza em condições extremas... Entre uma garfada e outra, lembrando-me do livro do Neil Leich (a anestética da arquitectura) lancei uma reflexão: Será que um Sherpa, tão hábil e atento no reino da natureza ainda selvagem, sobreviveria a um dia na cidade? As imagens que surgiram a seguir foram mais uma oportunidade de risota (que normalmente não falta por aqui). No sábado, um acontecimento inesperado, que lamentavelmente e involuntariamente testemunhei, trouxe de volta aquela que foi a anedota da noite de quinta. Estava na rua, a pé em direcção ao carro, quando oiço ao longe duas mulheres ofegantes, falar alto ao correr para apanhar o autocarro. Mãe e filha, carregadas do próprio peso e de sacos das compras, ansiavam não perder aquele que talvez fosse o único meio de transporte para casa. Parei, encostei-me e virei-me para as deixar passar. A Filha (como descobrí a seguir) estava a frente e parou ao meu lado para atravessar a estrada. o autocarro (cujo número não memorizei) estava a parar do lado oposto da estrada... estava quase garantida uma chegada a casa cedinho. Mas onde estava a Mãe? Com uma agilidade inusitada por uma mulher tão pesada e carregada de compras, tinha passado por entre carros estacionados e atravessado, sem olhar, a estrada, embatendo num taxi que procedia devagar naquela que é chamada "a procura de um cliente". Foi um segundo. Uma desatenção. Um pé na ravina.
As cidades também as têm. E são, algumas delas, tão pouco adequadas e "humanas", na sua aleatória construção e organização que podem rivalizar com o Everest, em graus diferentes.
Faltou o Sherpa urbano mas chegou o inem.
A dita do agente da PSP, que uma hora depois veio medir a rua, a Senhora estava em condições normais, com uma pequena contusão... Esta ravina não foi tão profunda (e ainda bem.... :).
São também estes momentos pesados que nos obrigam a pensar, sentir e valorizar cada segundo... e desejar podermos sempre estar a altura dos Sherpas Tibetanos, nestas cidades que precisam urgentemente de adaptar-se melhor ao homem contemporâneo. mas esta é outra história.
Fica aqui esta nota sobre um facto, comum numa cidade como Lisboa.
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