sexta-feira, 1 de março de 2013

reflexão crítica sobre 7 conferências #02



A procura do Paraíso
Texto crítico as partir da conferência de Gonçalo Ribeiro Telles, arquitecto paisagista. 15 de Fevereiro de 2012    


Entender o território na sua amplitude, através do seu ciclo, do seu eco-sistema natural, dos seus recursos, conseguindo assim e através deste “conhecimento do meio”, transformá-lo em habitat humano, é talvez a mensagem mais recorrente nas apresentações públicas do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. Os desafios que o século XX lançou e a transformação que operou, não só no território mas também na sociedade e na “cultura” mundial, raramente espanta pela sua sensibilidade, traduzindo-se na grande maiorias dos casos em patologias planetárias. Exemplos não faltam para suportar esta preocupação, desde a criação de guetos desordenados e não infra-estruturados em terrenos inundáveis ou não apropriados para a construção, para os párias da sociedade, até ao contínuo florescimento de empreendimentos turísticos em plena paisagem natural, para a classe mais abastada. Patologias epidérmicas e internas, como se estivéssemos a falar de um corpo, vivo. Surge, assim, uma pergunta: quem somos e que procuramos?

Uma leitura provocatória sobre a natureza humana, talvez simplista mas carregada de razões, encontra-se no famoso monólogo do filme “Matrix”, dos irmãos Cohen, entre o Agente Smith e Morpheus:
“I'd like to share a revelation that I've had during my time here. It came to me when I tried to classify your species and I realized that you're not actually mammals. Every mammal on this planet instinctively develops a natural equilibrium with the surrounding environment but you humans do not. You move to an area and you multiply and multiply until every natural resource is consumed and the only way you can survive is to spread to another area. There is another organism on this planet that follows the same pattern. Do you know what it is? A virus.“

No entanto, sem querer banalizar esta reflexão, o esforço da nossa “civilização” na procura de uma resposta que nos direccione para o futuro, mesmo que aleatória, é real. Estamos num “work in progress”, que parece seguir (ou deveria) a metodologia Galileiana da experimentação. Contudo, nesta longa experiência, que opera as transformações no território, parece que a pergunta original se perdeu. Os resultados não são satisfatórios, pois estão a colocar em risco o nosso eco- sistema, deixando assim uma herança incómoda às futuras gerações. Continuamos na exploração desenfreada dos recursos, na procura de objectivos a curto prazo, e hoje (num momento de crise sócio-político-económica) torna-se indispensável esta reflexão, pois as marcas de um desenvolvimento esquizofrénico, auto-centrado,de cariz “antropófago” tornar-se-ão indeléveis . É evidente a necessidade de começar a reparar os erros do passado, em que o crescimento das cidades foi orientado pelo princípio da especulação económica, em prol de uma leitura não só social, mas sim de reconhecimento ancestral da força da natureza. Mas qual será pergunta capaz de mover a sociedade, qual a hipótese que permitirá a construção de um novo teorema.
Parece clara a visão do arquitecto paisagista que, com grande paixão, expõe-se e assume um papel de mensageiro de um conceito ancestral que o nosso espírito Humano não consegue ainda assumir e celebrar.
Reajustar os objectivos e, com responsabilidade, construir o “paraíso” do homem, é a questão que Gonçalo Ribeiro Telles nos sugere como desafio. E através do conhecimento, diria quase sabedoria, continuar a transformar e adaptar o território às nossas necessidades, conscientes de que, sem o respeito pelo delicado sistema em que vivemos, não a nível local mas sim planetário, o paraíso dificilmente estará ao nosso alcance.

Um alerta real e preocupado que, perante o trabalho que impõe para a sua resolução, complementava com uma frase de Samuel Beckett:
“Ever tried. Ever Failed. Try again. Fail better.
1


1 BECKETT, Samuel Barclay, Nohow On: Company, Ill Seen Ill Said, Worstward Ho: Three Novels, Grove press, 1983 





Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.